Igreja Ortodoxa Russa (Patriarcado de Moscou)
Biblioteca de literatura missionária em diversas línguas.
Projeto do Departamento Missionário Sinodal "Tradutor Ortodoxo".
Português

UMA CONVERSA SOBRE HÁBITOS PREJUDICIAIS

Muitas vezes, quando falamos de fé e vida espiritual, pensamos em algo elevado: a oração, as boas ações, o amor ao próximo. E isso é correto. Mas há uma área em que a nossa fé se encontra com a realidade mais simples e terrena — o cuidado com aquilo que Deus nos deu: o nosso corpo, a nossa saúde. Vamos então falar, de forma bondosa e sem julgar, sobre algo que impede muitas pessoas de viver uma vida plena — os hábitos prejudiciais, o alcoolismo e o tabagismo.

É um tema difícil, rodeado de dor, vergonha e desespero. Se você ou alguém próximo enfrenta esta dificuldade, sabe que simples advertências como «isto faz mal» não funcionam. Vamos olhar para este problema não do ponto de vista moralista, mas do de alguém que ama, com a ajuda de Deus, que deseja a nossa cura e uma vida plena.

Três níveis de um mesmo problema

O mal destes hábitos é que afetam todas as esferas da vida humana.

O corpo: dano à saúde. Aqui tudo é mais ou menos evidente. O álcool e o tabaco são venenos que, lenta mas seguramente, destroem o organismo. Sofrem o coração, os pulmões, o fígado, o cérebro. Nós próprios, com as nossas mãos, encurtamos e envenenamos a vida que nos foi dada como um dom precioso. O apóstolo Paulo recorda-nos: «Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual possuís da parte de Deus?... Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus» (1ª Epístola aos Coríntios 6:19-20). O nosso corpo não é propriedade nossa, é um templo que temos o dever de preservar.

As relações: destruição da família e das amizades. O pecado do alcoolismo é sempre egoísmo. A pessoa dependente vai-se fechando em si mesma, o seu mundo reduz-se ao gargalo da garrafa ou ao maço de cigarros. Sofrem os mais próximos: os filhos, que veem não o pai ou a mãe, mas a sua doença; os cônjuges, que vivem em stress e medo constantes; os amigos, que são afastados um a um pela mentira e pela falta de fiabilidade. Este pecado nunca é apenas pessoal — fere sempre quem está ao lado.

A alma: afastamento de Deus. Este é o resultado mais grave e triste. A intoxicação constante ou outra dependência endurecem o coração, tornam-no incapaz de oração, de alegria serena, de receber a graça de Deus. A alma perde o brilho, enche-se de tralha, a voz da consciência cala-se cada vez mais. A pessoa perde gradualmente a ligação mais importante — a ligação com Deus, escolhendo voluntariamente aquilo que a destrói.

Não condenação, mas caminho para a cura

Se está a ler isto e se reconhece a si ou a alguém próximo, por favor, não desespere nem se culpe ainda mais. A Igreja não é um clube de pessoas perfeitas. Cristo veio chamar não os justos, mas os pecadores ao arrependimento (Evangelho segundo Mateus 9:13). O Seu amor e perdão estendem-se a todos, sem exceção.

A luta contra a dependência é um caminho longo; percorrê-lo sozinho é extremamente difícil. Mas você não está sozinho. O primeiro e mais importante passo é reconhecer honestamente o problema e pedir ajuda.

Volte-se para Deus. Pare diante de um ícone e diga, simplesmente, com as suas palavras: «Senhor, estou perdido, está-me a ser difícil, não consigo sozinho. Ajuda-me, dá-me forças!». Não espere um milagre imediato, mas comece com esta oração sincera.

Procure apoio na Igreja. Fale com um sacerdote; se for batizado, confesse-se. Não tenha medo de ser julgado pelo padre — acredite, ele já ouviu muitas histórias. Não o vai julgar, mas dar-lhe-á conselho, apoiá-lo-á com oração e, eventualmente, impor-lhe-á uma penitência que não será insuportável, mas que será o primeiro passo para a abstinência.

Busque apoio fraterno. Em muitos templos existem hoje grupos especiais de ajuda e partilha para quem luta contra dependências. A oração em comum, os testemunhos de quem já está no caminho da cura e a compreensão de que não está sozinho têm uma força enorme.

A luta contra um hábito prejudicial não é um ato único, mas uma escolha diária, por vezes a cada minuto. Haverá quedas e falhanços. Mas após cada queda é preciso levantar-se, arrepender-se e continuar, confiando na misericórdia de Deus.

Não se culpe pela fraqueza, mas peça a Deus força. Não se fixe no fracasso, mas olhe para Cristo, que lhe estende a mão. O caminho para a liberdade começa com um pequeno passo — a decisão de entregar a sua fraqueza Àquele que a pode transformar em força.