Esta é uma das perguntas mais difíceis e dolorosas. Vemos pessoas inocentes a sofrer, doenças a atingir crianças, o mundo dominado pela mentira, pela violência e pelas guerras. E no coração surge a pergunta amarga: «Onde está Deus? Se Ele é Todo-Bondoso e Todo-Poderoso, por que permite que tudo isto aconteça?»
Esta pergunta não é nova. Torturou grandes santos e crentes simples. Vamos tentar compreendê-la juntos, apoiando-nos no que a fé cristã nos revela.
Primeira razão: a liberdade dada ao ser humano
Para entender a natureza do mal, é preciso voltar ao princípio, à história de Adão e Eva. Deus não criou os seres humanos como marionetas programadas para o amor e o bem. Criou-nos à Sua imagem e semelhança, o que significa que nos deu um dom grande e temível: a liberdade de escolha.
Podemos escolher livremente entre o bem e o mal, entre o amor a Deus e o egoísmo, entre a confiança n’Ele e o desejo de viver à nossa maneira. Sem esta liberdade não haveria amor verdadeiro nem fé autêntica. Amor forçado já não é amor.
A tragédia aconteceu quando os primeiros seres humanos usaram essa liberdade para escolher, não a confiança no Criador, mas o seu próprio caminho. Cometeram o primeiro pecado. É como se alguém atirasse uma pedra a um lago puro: o pecado é a pedra, e as ondas que se espalham são todas as consequências — doenças, morte, inveja, ódio, injustiça. O mal não foi criado por Deus; surgiu como distorção do bem pelo abuso da liberdade.
Isto ajuda também a compreender a natureza do inferno. O inferno não é um lugar para onde Deus envia alegremente os pecadores. É o estado de quem, durante toda a vida, escolheu conscientemente e livremente o caminho afastado de Deus — o caminho do ódio, do orgulho e do egoísmo. Ao morrer, essa pessoa recebe simplesmente aquilo que sempre escolheu: a existência sem Deus.
Segunda razão: a prova que conduz ao crescimento
Mas por que sofrem as pessoas justas? Parte da resposta encontra-se na história do justo Job.
Job era um homem piedoso e bom. Deus, querendo manifestar a sua fé, permite que o diabo lhe envie terríveis provações: perde toda a riqueza, os filhos e, por fim, a saúde. Os amigos convencem-no de que, certamente, terá alguma culpa, pois Deus o castiga assim. Mas Job, mesmo nas piores tormentas, não renega Deus. Não compreende por que lhe acontece aquilo, mas continua a confiar n’Aquele que lhe deu a vida.
No final, Deus responde a Job, mostrando a Sua grandeza e a sabedoria incompreensível para o homem. Job humilha-se perante esse mistério. O essencial é o desfecho: Deus não só restitui a Job em dobro tudo o que perdeu, mas, acima de tudo, através do sofrimento a fé de Job purificou-se de tudo o que era superficial. Já não conhecia Deus apenas «de ouvir falar», mas encontrou-O face a face no meio das suas angústias.
Esta história ensina-nos que o sofrimento pode ter um sentido purificador e fortalecedor. Tal como os exercícios físicos pesados tornam os músculos mais fortes, assim as provações da vida podem temperar o nosso espírito, ensinar-nos a compaixão, a paciência, a humildade e a confiança total em Deus.
A cruz que carregamos não é um castigo sem sentido. Muitas vezes torna-se o instrumento que nos salva de nós mesmos: do nosso orgulho, da nossa autossuficiência, do nosso esquecimento de Deus. Nas tribulações clamamos: «Senhor, ajuda-me!» — e essa é por vezes a oração mais sincera da nossa vida.|
O que fazer diante do mal?
Não culpar Deus. Ele está do lado de quem sofre. Recordemos que o próprio Deus, em Cristo, desceu à terra e passou pelas piores dores: traição, julgamento injusto, morte atormentadora. Não eliminou o mal com um gesto mágico, mas entrou no seu coração, para o vencer a partir de dentro com o Seu amor e a Sua Ressurreição.
Combater o mal em nós próprios. A forma mais segura de resistir ao mal do mundo é vencê-lo no próprio coração. Vencer a irritação com bondade, a avareza com generosidade, o ódio com oração pelo ofensor. É a nossa contribuição diária para a cura da alma.
Confiar. Nunca conseguiremos compreender plenamente o desígnio de Deus para o mundo e para a nossa vida. Mas podemos confiar n’Ele como uma criança confia num pai amoroso, mesmo quando tem medo e dor. Acreditamos que, no fim, como diz o apóstolo Paulo, «aos que amam a Deus tudo concorre para o bem» (Carta aos Romanos 8:28).
O mal é uma terrível realidade do nosso mundo, mas não é omnipotente. Foi vencido pela Cruz e pela Ressurreição de Cristo. A nossa tarefa é agarrarmo-nos a Cristo; então nenhum mal nos poderá tirar o essencial — a vida eterna no Reino do Amor.