A questão da origem do mundo e do homem é hoje frequentemente reduzida ao confronto entre duas perspetivas aparentemente irreconciliáveis: a narrativa bíblica da criação e a teoria científica da evolução. Muitos crentes sinceros sentem aqui uma tensão: parece que têm de escolher entre a fé e os dados da ciência. Como é que a Igreja Ortodoxa encara esta questão?
É importante dizer desde já: a Igreja não rejeita os dados da observação da natureza. Ela respeita a ciência na sua esfera de competência — o estudo das leis do mundo material. No entanto, quando a ciência passa das observações para conclusões filosóficas, tentando explicar não só o «como», mas também o «de onde» e o «para quê» de tudo o que existe, ultrapassa os seus limites. A teoria da evolução no seu entendimento clássico e materialista não é apenas uma teoria biológica, mas uma visão do mundo inteira, que muitas vezes contradiz diretamente verdades centrais da fé cristã.
É importante dizer desde já: a Igreja não rejeita os dados da observação da natureza. Ela respeita a ciência na sua esfera de competência — o estudo das leis do mundo material. No entanto, quando a ciência passa das observações para conclusões filosóficas, tentando explicar não só o «como», mas também o «de onde» e o «para quê» de tudo o que existe, ultrapassa os seus limites. A teoria da evolução no seu entendimento clássico e materialista não é apenas uma teoria biológica, mas uma visão do mundo inteira, que muitas vezes contradiz diretamente verdades centrais da fé cristã.
O principal conflito: onde fica o lugar de Deus?
A teoria materialista da evolução afirma que todo o mundo extraordinariamente complexo, incluindo o homem, surgiu por si mesmo, como resultado de mutações aleatórias e seleção natural, sem a intervenção de um Criador Inteligente. Para um cristão, isto é inaceitável.
O apóstolo Paulo diz: «Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder como a sua divindade, se entendem e claramente se veem pelas coisas que estão criadas» (Romanos 1:20). A beleza, a complexidade, a finalidade e a harmonia do universo são, para o crente, uma indicação direta da existência de um Criador Sábio. Afirmar que tudo isto é resultado de um jogo cego do acaso significa negar a própria base da visão religiosa do mundo.
O apóstolo Paulo diz: «Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder como a sua divindade, se entendem e claramente se veem pelas coisas que estão criadas» (Romanos 1:20). A beleza, a complexidade, a finalidade e a harmonia do universo são, para o crente, uma indicação direta da existência de um Criador Sábio. Afirmar que tudo isto é resultado de um jogo cego do acaso significa negar a própria base da visão religiosa do mundo.
O problema do homem: imagem de Deus ou macaco aperfeiçoado?
O conflito mais grave diz respeito à natureza do homem. A revelação bíblica ensina-nos que o homem é o coroamento da criação, feito à imagem e semelhança de Deus (Génesis 1:27). Deus pessoalmente inspira nele a alma — o princípio imortal que torna o homem uma pessoa, capaz de amor, criatividade, conhecimento de Deus e vida eterna.
A teoria da evolução, pelo contrário, vê o homem como um produto casual do desenvolvimento da matéria, apenas um animal mais complexo, um «macaco aperfeiçoado». Ela é incapaz, por princípio, de explicar a existência no homem da consciência, da consciência moral, da liberdade de vontade, da capacidade de sacrifício próprio e da sede de eternidade — tudo aquilo que constitui a imagem de Deus em nós.
Os Santos Padres ensinam unanimemente que a morte e a corrupção entraram no mundo como consequência da queda dos primeiros homens. A lógica evolutiva, porém, baseia-se na afirmação oposta: a morte e a luta pela existência foram, durante milhões de anos, o principal instrumento de «criação» e seleção. Isto coloca em causa o próprio sentido do Sacrifício de Cristo, que foi precisamente a vitória sobre a morte.
Nem tudo é tão linear dentro da própria teoria:
A teoria da evolução, pelo contrário, vê o homem como um produto casual do desenvolvimento da matéria, apenas um animal mais complexo, um «macaco aperfeiçoado». Ela é incapaz, por princípio, de explicar a existência no homem da consciência, da consciência moral, da liberdade de vontade, da capacidade de sacrifício próprio e da sede de eternidade — tudo aquilo que constitui a imagem de Deus em nós.
Os Santos Padres ensinam unanimemente que a morte e a corrupção entraram no mundo como consequência da queda dos primeiros homens. A lógica evolutiva, porém, baseia-se na afirmação oposta: a morte e a luta pela existência foram, durante milhões de anos, o principal instrumento de «criação» e seleção. Isto coloca em causa o próprio sentido do Sacrifício de Cristo, que foi precisamente a vitória sobre a morte.
Nem tudo é tão linear dentro da própria teoria:
- A ausência de formas transicionais. Se um espécie se transforma gradualmente noutra, a registro fóssil deveria mostrar incontáveis formas intermédias, «incompletas». No entanto, a paleontologia mostra-nos espécies plenamente formadas e completas. A famosa «ligação em falta» entre o macaco e o homem continua em falta, apesar de anúncios sensacionais frequentemente desmentidos.
- O reducionismo. Trata-se de uma abordagem filosófica que tenta reduzir o complexo ao simples, explicar o superior pelo inferior. Do ponto de vista reducionista, o amor é «apenas» uma reação química no cérebro, e o pensamento é «apenas» o resultado de impulsos elétricos. Esta abordagem destrói a essência dos fenómenos, privando o mundo de sentido superior e reduzindo tudo a matéria sem alma.
E haverá algum compromisso?
Alguns teólogos tentam encontrar um compromisso, propondo a «evolução teísta» — a ideia de que Deus guiou o processo evolutivo. No entanto, para a consciência ortodoxa, esta posição tem falhas graves, pois continua a supor que Deus usou mecanismos cruéis e sem sentido de morte e luta para criar, o que contradiz a conceção de Deus como Bem absoluto e Amor.
A perspetiva ortodoxa tradicional consiste em ver na narrativa bíblica da criação não um relatório científico (que ela não é), mas uma verdade revelada por Deus sobre o sentido do universo e o lugar do homem nele.
O mundo foi criado por Deus de forma intencional, sábia e bela. O homem não é produto do acaso; o homem é a criação amada, chamada ao convívio com o Criador. Reconhecer isto não significa rejeitar a ciência. Significa reconhecer os seus limites e compreender que as questões de sentido, finalidade e origem da alma pertencem ao domínio da fé, que os métodos das ciências naturais não podem nem refutar nem confirmar.
A nossa fé é a fé no Criador, «que fez o céu, e a terra, o mar e tudo o que neles há» (Salmo 145:6). E isso dá-nos uma compreensão incomparavelmente mais profunda, plena de sentido e alegre do propósito da nossa vida e do nosso destino do que a teoria do acaso cego.
A perspetiva ortodoxa tradicional consiste em ver na narrativa bíblica da criação não um relatório científico (que ela não é), mas uma verdade revelada por Deus sobre o sentido do universo e o lugar do homem nele.
O mundo foi criado por Deus de forma intencional, sábia e bela. O homem não é produto do acaso; o homem é a criação amada, chamada ao convívio com o Criador. Reconhecer isto não significa rejeitar a ciência. Significa reconhecer os seus limites e compreender que as questões de sentido, finalidade e origem da alma pertencem ao domínio da fé, que os métodos das ciências naturais não podem nem refutar nem confirmar.
A nossa fé é a fé no Criador, «que fez o céu, e a terra, o mar e tudo o que neles há» (Salmo 145:6). E isso dá-nos uma compreensão incomparavelmente mais profunda, plena de sentido e alegre do propósito da nossa vida e do nosso destino do que a teoria do acaso cego.